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A Shonen West conversou com Nicomikha, autora de O...

29/10/2025

A Shonen West conversou com Nicomikha, autora de Otho e os Ratos, que contou que começou a escrever mangás com uma simples caneta BIC: “Eu comecei a escrever mangás com papel de caderno pautado da escola e caneta BIC. No lado subjetivo: crises existenciais, depressão e um bocado de sede de vitória, seguido por uns suspiros e alguns inesperados sorrisos; porque acredito que os sentimentos brutos e crus são a maior matéria-prima para se criar um mangá — que é basicamente a gema polida... e quem dera se visse a clara junto. Daria pra ter um omelete, nham.”

A mangaká sempre soube que acabaria crescendo e trabalhando em áreas que envolvessem o desenho:  “Hmm... entãããão... como eu só tenho 21 anos, acho que o que me resta pra contar é a vida que tive até agora. Instintivamente, eu sempre soube que só servia para desenhar. Sempre desenhei desde criança, mas comecei a escrever mangás entre 2015 e 2016. Antes disso, fazia visual novels em 2013, com aquele traço e letra de uma criança de 9 anos. Pois é.”

Ela sonhava acordada com suas histórias e personagens, mesmo com os percalços que enfrentou durante a faculdade:  “Durante as aulas, eu desenhava e sonhava acordada com os personagens originais, muito boys love e serelepidades, ao invés de prestar atenção nos professores. De alguma maneira, mantive as notas máximas até o fundamental II — mesmo com garotas me enforcando na escada e me ameaçando de morte todo dia. A esse ponto, eu só queria virar o protagonista de qualquer comercial da Red Bull: ter asaaaaas! ...e voar livre por aí. Típica história de qualquer criança deprimida e dramática, eu sei. Hahaha!”

Mesmo sem o apoio dos pais, Nicomikha nunca deixou de acreditar que conseguiria trabalhar no ramo artístico:  “E bem... explicando o porquê consegui me manter nesse ramo artístico: dou graças à criação asiática que recebi. Quando ouvi dos meus pais que era pra eu me matar, descobri que ninguém dá bola mesmo. Então, a ficha caiu de que não importa o que os outros dizem. ‘Nah~ tá bom, né’, pensei, continuando o foco na profissão supostamente ‘errada’, já que era — e ainda é — a única coisa que me faz sentir viva. Nesse ponto, só deu pra pensar: ‘Dane-se, humanidade! Eu vou viver e provar pra todos que um humano como eu consegue viver!’. Até parecendo aqueles anti-heróis todo edgy, pfft. Bizarro. Foi uma fase em que cortei o cabelo com a estilosa franja emo. Ah, e devo ter criado meu canal no YouTube nessa época também, ensinando o que eu sabia de desenho pelos vídeos.”

Um acidente aparentemente bobo — mas que poderia ter sido fatal — fez Nicomikha perceber o quão preciosa é a vida:  “No meu aniversário de 15 anos, me acidentei: enrosquei na rede de descanso, bati a cabeça e desmaiei. ‘Eu não quero morrer!! Eu não quero morrer!!’ HAHAHAH parece que eu gritava mesmo inconsciente; e desde que me recuperei, as pessoas dizem que eu não sou mais a mesma e que tô lelé demais — família... antes eu era mais séria? Talvez, né. Bem, parece aleatório, mas esse evento me fez acordar pra vida: ‘Noossa... e se eu tivesse morrido agorinha?’. Então pensei: ‘Se o desenho é a minha vida, eu preciso levar o desenho a sério... que eu viva sem arrependimento de não ter desenhado o suficiente’.” 

Depois disso, ela começou a procurar maneiras de trabalhar com mangás:  “Então, com uns 17~18 anos, corri atrás de cursos. Na época, aqui no Brasil, um dos melhores cursos de desenho no estilo mangá que encontrei foi na escola Japan Sunset. Calhei de estudar com o Israel Guedes, autor de T-Hunters. E bem... abri uma conta no Tapas Comics para postar os mangás do desafio que me autoimpus: ‘postar um capítulo por aula de desenho’. Eu fazia isso no meio da aula mesmo, porque aparentemente me viciei em uma gamificação que o Izu fez uma vez (cada aula tinha lição de casa com três níveis e o último era fazer um mini mangá). Outro professor que me marcou muito foi o Maurício Ossamu, que na época eu nem imaginava ser o assistente-chefe de Tetsuo Hara, autor de Hokuto no Ken. Levei um susto quando ele veio me perguntando um monte de coisa em japonês pelo X (que na época ainda era Twitter). Bem, acho que tive muita sorte em ser encontrada. De alguma forma, foi por meio do sensei Ossamu que tive conexão com a Shonen West em um futuro não tão distante.”

Ela também trabalhou na área de design gráfico: “Trabalhei em uma gráfica rápida, mas depois fui para o atendimento ao cliente de uma empresa de energia. ‘Bom dia, no que posso te ajudar?’. Pensei muito. Saí. E bem, desde então, vivi algumas experiências que me fizeram virar uma hikikomori e cortar o cabelo pra ficar quase calva (risos). Em resumo, sou bacharel em design gráfico e, nos últimos dois anos, mal e mal saio de casa. Este ano terminei Undertale: Corrupted Lands, um mangá fanzine de universo alternativo de Undertale com alguns amigos; dois mini one-shots para a edição de agosto de 2025 da Shonen West (estou na página 34); e agora publico na edição de outubro de 2025 com Otho e os Ratos. Polindo habilidades a cada dia, um passo de cada vez. Espero que a história da minha vida até agora te ajude com algum insight, inspiração ou... sei lá, que tenha sido engraçado. Gratidão!”

Podemos dizer que o amor também foi um dos motivos que fez a autora se aprofundar ainda mais no conhecimento não só de mangás, mas também da língua japonesa:  “Ainda no ensino médio, comecei a trabalhar dando aulas de teclado e mentorias particulares de desenho. Também tive um namorado japonês que me fez estudar japonês que nem uma doida, só porque estava apaixonadinha e queria seguir ele pro outro país. Acontece que essa besteira me fez subir até o nível N3 no JLPT em alguns meses... pra, no final, ele me largar. Coisa de trouxa, mas foi bom XD, porque isso me fez entender muito mais da cultura japonesa — o que foi imprescindível pro entendimento do curso que fiz na faculdade: o curso de mangá da Me2 Art Studio!”

Sobre a Me2 Art Studio, a mangaká afirma que lá foi um lugar transformador para suas habilidades:  “Não só refinou minhas habilidades no mangá, mas também a forma de enxergar a vida. Contraste, narrativa visual e psicologia da metalinguística... As correções dos senseis (professores) me ajudaram na disciplina e também a assumir, na cara de pau, que eu precisava melhorar. Passei de arrogante pra humilde num instante. Recomendo — é quase como ler a Bíblia, mas na trilha artística. Recomendo a leitura de João 1:8-10 pra quem quiser entender como é a experiência. No entanto, acredito que a escola não tenha nenhum segmento religioso, por ser apenas focada no ensino de mangá, né. — ‘Mas é claro, Nicomikha…’.”

A autora também contou um pouco sobre suas principais influências:  “Assisti Hunter x Hunter, de Yoshihiro Togashi, oito vezes, do começo ao fim. Angelic Layer; fã de Purikyua; Digimon; Naruto (tinha até a mochila do ninja); Katekyo Hitman Reborn; Zelda; Kingdom Hearts... hã... é, Yumeiro Patissière... e de anime e mangá é isso. Jogos flash: Nitrome, Friv, Cooking Mama (?), Wii Sports (?)... e centenas de horas em Toram Online e Arcaea. Os 12 trabalhos de Hércules... os livros didáticos da escola... e acho que já estou divagando.”

A entrevista encerra com Nicomikha contando não só como surgiu Otho e os Ratos, mas também sua visão sobre o mercado brasileiro de mangás:  “Ah, o cientista e os roedores, né? Na verdade, eles são apenas um prequel de uma história maior minha sobre controle mental. E antes de chegar a esta versão publicada na Shonen West, passei várias vezes com os editores: teve Otho que quase virou órfão; Otho dançando breakdance; Otho que ia ser morto... Era uma história até que bem depressiva (???) pra dizer a verdade. Agradeço ao meu editor Marcelo (M2) — autor de Ager Stellas — que me acompanhou durante os names (storyboards) ainda bem crus. Assim como o Mikhasso — iaê, xará? — que me ajudou a potencializar o drama na história durante as últimas etapas da produção do mangá. Então testei o gênero de comédia: ‘Oras, se nada depressivo tá sendo aprovado, vou testar o completo oposto!’, e assim baseei os personagens nas pessoas que entram e saem da minha vida. Calhou que o Otho e o José são, ambos, traços caricaturescos de dois ex-namorados meus. Ah, e não, a minha primeira história autoral publicada é A Bolha de Sol, que apresentei no evento Anime Friends 2022. Eu não sou especialista em dados analíticos de mercado, então só tento ajudar fazendo a minha parte: desenhar. Acho que é o mínimo que posso fazer como artista. Num panorama geral, acho que o mercado está crescendo. Desejo boa sorte para todos os meus coleguinhas artistas que estão nessa mesma jornada. Fé.

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Gabriel Duarte

Achei interessante a história da Nicomikha e até me identifiquei em algumas coisas, eu também quero publicar meu mangá aqui.

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